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Os concertos na história


O desenvolvimento do concerto eterno através da História Bíblica é reafirmado a cada estágio.

Durante séculos os protestantes têm alimentado uma contínua discordância em relação aos concertos bíblicos, estabelecem forte e inúmeras diferenças entre as duas dispensações, de Moisés e Cristo.

Primeiramente, o objetivo de um concerto é produzir segurança a um projeto ou relacionamento com o qual duas partes se comprometem. Por exemplo, um casal que não é casado legalmente não possui a mesma segurança, em seu relacionamento, que possui um casal que esteja unido de acordo com as leis matrimoniais. No primeiro caso, algumas vezes a paixão poderá ser abalada e as promessas correm o risco de ser esquecidas.

Que Deus desejasse ter qualquer relacionamento conosco, indignos como somos, já seria algo muito surpreendente. Mas que Ele desejasse comprometer-Se num relacionamento de aliança conosco, é verdadeiramente extraordinário, pois o Senhor diretamente estaria comprometendo-se em cumprir a sua parte no acordo estabelecido. Podemos definir um concerto como uma concordância formal entre duas partes ou duas pessoas. Em outras palavras, é um acordo para iniciar-se um projeto e vê-lo desenrolar-se até o fim. Para que isso seja consumado, devemos querer construir essa ponte, formar essa companhia, querer permanecer unidos por toda a vida.

Um concerto tenta cumprir alguma coisa. É uma concordância mútua que torna provável o sucesso desse cumprimento. Ter isso em mente é importante para compreendermos a razão pela qual a discussão sobre concertos nas Escrituras degenera em uma discussão sobre condições e mandamentos, como se essas coisas fossem um concerto em si mesmas. Na verdade, um concerto está emoldurado por condições que precisam ser honradas, mas elas existem com o objetivo de proteger o projeto e levá-lo ao sucesso.

Aperto de mãos, circuncisão, emblemas de comunhão, um arco-íris cruzando o céu (no caso de Deus com Noé) e outros tipos de sinais aparecem na Bíblia como indicadores que expressam ou confirmam as resoluções mútuas que as partes envolvidas tomaram, na formulação de um concerto. Ao manifestar qualquer um desses sinais, uma das partes está dizendo à outra: "Estou levando muito a sério este compromisso. Cumpra você também a sua parte."

Qual é precisamente a grande promessa que Deus tem Se comprometido a realizar em relação a nós? Nada menos que o estabelecimento de um reino, a criação de um espaço relacional onde Ele possa estabelecer raízes com Seu povo e nós possamos nos unir como Sua família. Uma leitura da história de Abraão (Gn 12; 15 e 17) confirma essa realidade. Abraão foi chamado por Deus a fim de deixar suas origens e seus familiares, e aventurar-se a uma terra estranha na qual ele deveria fundar um reino.

Deus disse ao patriarca:

Gn 17:4-8 - "Quanto a Mim, será contigo a Minha aliança; serás pai de numerosas nações. Não mais serás chamado Abrão, mas Abraão será o teu nome; pois por pai de muitas nações te hei posto; far-te-ei frutificar sobremaneira, e de ti farei nações, e reis sairão de ti; estabelecerei o meu pacto contigo e com a tua descendência depois de ti em suas gerações, como pacto perpétuo, para te ser por Deus a ti e à tua descendência depois de ti. Dar-te-ei a ti e à tua descendência depois de ti a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em perpétua possessão; e serei o seu Deus."

Que saga! Deus determina abrir uma nova fronteira, na qual o coração de Abraão pode se ligar com o Seu coração e estar em paz. O fabuloso sonho de um reino, um lugar de unidade familiar, dirige todas as fases do concerto eterno. Isso foi verdade por ocasião do concerto feito com Abraão em meio às instalações de Ur (Gn 12), assim como foi verdade no antigo concerto feito com Israel à margem das rochas do Sinai (Êx 23:20 e 32; 25:8; 33; 34; Dt 7). Também foi verdade quando Jesus falou da nova aliança com os discípulos ao redor da rústica mesa (Mt 26:27-29; João 14:1-3), tal como é verdade para as doze tribos de Israel, os redimidos de todas as eras que permanecem maravilhados enquanto a Nova Jerusalém suavemente desce do Céu (Ap 21:1-5, 9 e 10).

Tais experiências de concerto são nada menos que um desdobramento progressivo, em estágios, do concerto eterno feito com Abraão. Tudo isso nos leva a uma questão: Qual é o paradigma utilizado na Bíblia para descrever a mudança no concerto? Trata-se, por acaso, de um paradigma revolucionário de mudança que desfaz o status que estabelece uma ordem completamente nova, como se fosse uma revolução na qual os insurgentes assumem o poder, ignoram as regras antigas e estabelecem suas próprias ordens? Ou se trata de um paradigma evolucionário, no qual o novo emerge progressivamente do velho? As Escrituras ensinam que o reino se desdobra progressivamente; primeiro o pedúnculo, depois a árvore, então o fruto (Mc. 4:26-29). A lei e o concerto andam juntos. Jesus Cristo uniu o reino e a lei (Lc 16:16 e 17). Posteriormente, a prenunciada mudança evolucionária foi construída na própria origem do concerto feito com Abraão (Gl 3:8). A bênção prometida devia envolver, da família de Abraão à nação, a uma comunidade internacional, e então alcançar sua fruição completa no Céu, na cidade aguardada pelo patriarca (Hb 11:10).

A cada estágio de desenvolvimento, o concerto eterno é reafirmado, e o processo avança. A cada estágio alguma coisa expira e algo novo acontece. O processo envolve tanto continuidade como descontinuidade. Se o paradigma progressivo da mudança do concerto é correto, seguem-se algumas observações importantes.

Não podemos colocar um estágio de desenvolvimento contra outro, como se eles fossem inerentemente antagônicos. O fato é que os estágios mais baixos produzem os estágios mais altos, e passam adiante sua dinâmica, seu DNA. Portanto, não podemos opor o concerto sinaítico, feito com Moisés, contra o concerto eterno feito com Abraão, ou o novo concerto feito com os discípulos. Todos os concertos prosperam sobre promessa e graça. Os indivíduos não eram salvos por graça nos dias de Abraão, e pela lei nos dias de Moisés. Também não foram salvos pela graça nos dias de Paulo e pela lei nos dias de Moisés, como alguns afirmam. Que os tempos de Moisés também eram tempos de graça, está claro a partir dos seguintes fatos:

1. Deus não escolheu Israel como Sua propriedade exclusiva por causa de algum mérito que a nação tivesse. Ele a escolheu porque a amou e pelo juramento feito aos seus antepassados. Moisés refere-se ao concerto sinaítico como uma aliança fundamentada no amor (Dt 7:7-9; 4:32-39).

2. O prefácio dos Dez Mandamentos lembra os israelitas de que o único doador da lei é o Deus que os redimiu pelo significado da Páscoa (Êx 20). Israel foi salvo pela graça antes que tivesse recebido a lei (Gl 3:15-18). Até mesmo as condições do concerto eram para Israel uma graciosa lembrança de sua redenção (Dt 6:20-25). Deus primeiro livra seu povo (do Egito) para posteriormente exigir deles obediência, a salvação vem primeiro, depois a obediência é exigida.

3. A relação entre a lei e a graça estava representada pelo significado da arca do concerto. Ali, as tábuas da lei estavam colocadas sob a cobertura dourada do propiciatório (Ex 31:7).

4. É nada menos que a ceia pascal que Jesus transforma no símbolo do novo concerto (Mt 26:17-30). A graça expande-se cada vez mais plenamente, enquanto o concerto vai adquirindo maturidade.

5. De acordo com a epístola aos hebreus, Israel não entrou no repouso de Deus porque optou pelas obras e recusou viver pela fé (Hb 4:1-11). Os israelitas eram salvos pela fé, como nós o somos; viveriam pela fé, tal como acontece conosco (Hb 11; Rm 9:31 e 32; Is 45:25).

6. Moisés não é a antítese de Jesus Cristo. As Escrituras dizem que ele foi fiel como um servo "em toda a casa de Deus" e testemunhou "das coisas que haviam de ser anunciadas" (Hb 3:1-6). O próprio Cristo disse: "Porque, se de fato crêsseis em Moisés, também creríeis em Mim; porquanto ele escreveu a Meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como creríeis nas Minhas palavras?" (Jo 5:46 e 47).

7. Paulo exaltou a experiência de concerto vivida por Israel como essencial à história da salvação. Foi através de Israel, ele disse, que a encarnação de Jesus ocorreu. O apóstolo encontrou esplendor na história israelita sob o velho concerto. "Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência: que tenho grande tristeza e incessante dor no coração; porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas, segundo a carne. São israelitas. Pertence-lhes a adoção, e também a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas; deles são os patriarcas e também deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre. Amém" (Rm 9:1-5). A salvação é dos judeus. Eles não apenas nos levam a Cristo (Gl 3:24), mas no-lo deram.

8. A aliança do Sinai não foi de salvação pela lei, ou seja, de legalismo. Deus jamais estabeleceria um concerto fundamentado em salvação pelas obras, para não incorrer na problemática de que os homens poderiam atribuir méritos salvíficos a eles mesmos. O legalismo é sempre como trapos de imundícia. Mas Paulo classifica o antigo concerto como glorioso. Quando Moisés recebeu a lei, sua face brilhou com a glória de Deus (2 Co 3:7-11; Êx 34:29-35). Apenas em comparação à glória de Cristo a glória de Moisés foi menos impressiva; mas ainda assim permanecia impressiva.

9. A vida vitoriosa dos heróis do Antigo Testamento testifica da salvação unicamente pela graça. Podemos nos lembrar de Jacó, Davi, Mefibosete e Gômer, para citar apenas uns poucos. É interessante ler a procissão de fiéis que desfila em Hebreus 11.

Obviamente que a mudança progressiva do concerto, entretanto, não está necessariamente livre de problemas. Sempre existe o perigo de uma interrupção nesse processo. Quando isso acontece, um estágio progressivo inicial, normal, pode sabotar um estágio posterior com trágicas conseqüências. Essa era claramente a situação em muitas antigas igrejas cristãs, quando Paulo escreveu sua carta aos gálatas. O que aconteceu foi que judeus cristãos tentaram congelar o reino dentro de uma estrutura de judaísmo e aliança legalista. Ergueram uma barreira que dificultou o avanço da era escatológica do Espírito. Dessa maneira, criaram uma tensão antinatural entre a era de Moisés e a era do Espírito, entre a graça e a lei, entre lei e Cristo, entre graça e lei. Mas é preciso lembrar em que essa tensão foi criada; não é que exista inerentemente. Os cristãos judeus insistiam que os gentios somente poderiam ser justificados se primeiramente se tornassem judeus, submetendo-se ao rito da circuncisão, adotando restrições dietéticas e observando os dias santos judaicos. A preservação de uma identidade nacional é a questão central nas lutas dos gálatas. Paulo busca desmontar essa barreira. É crucial entender que ele não está escrevendo um tratado teológico sobre a relação entre a lei e a graça, nesta epístola. Ao contrário disso, seus argumentos abordam uma interrupção progressiva incomum. Portanto, ele fala aos gálatas que eles escolheram sair da era escatológica do Espírito e regressar ao legalismo e nacionalismo judaico (Gl 3:1-5). E lembra que Deus sempre planejou que os gentios fossem parte do Seu reino, ao dizer a Abraão que nele seriam abençoados todos os povos da Terra (Gl 3:6-9). Além disso, o apóstolo adverte que se os gálatas insistirem em permanecer onde estão, ficarão assim sob a maldição da lei, pois Israel não obedeceu a Deus (Gl 3:10-14).

E mais: a lei não anula ou invalida as promessas feitas a Abraão, o que significa que a promessa ainda está presente no concerto feito com Moisés (Gl 3:15-18). Paulo argumenta que a lei nunca foi um meio de justificação. Se fosse possível à lei salvar a humanidade, Deus a teria feito com essa característica. Mas não a fez, porque não era Seu propósito que fosse assim (Gl 3:21).

A era da lei, do concerto legalista, tinha o propósito de levar-nos à era de Cristo (Gl 3:24); não era um ponto final, mas uma fase do progresso histórico. Permitia que a promessa a Moisés e Abraão nos conduzisse a Cristo. A esta altura devemos nos perguntar o que é realmente extinto enquanto o concerto do Sinai progride em direção à era cristã? O propósito básico de Paulo em sua carta aos gálatas é declarar que o Israel nacional já não permanece como o único povo especial de Deus. A era de sua identidade exclusiva passou, sendo substituída por uma identidade espiritual internacional, multiéctnica. A bênção da exclusão (Êx 19:5 e 6) tornou-se a bênção da inclusão (Gl 3:26-29). Todos os que têm fé, incluindo os gentios (o que parece um escândalo), são agora fervorosos candidatos a um relacionamento de aliança com Deus. Além disso, a vida espiritual dos crentes já não é expressa através de um gracioso sistema de lei, mas através do relacionamento com Jesus (Gl 5:1-6). O amor legítimo da lei no coração do israelita (Dt 6:4-9) já não inspira a vida espiritual do crente (Gl 5:1-6) Jesus veio, e agora Ele é o inspirador da aliança com Seu povo.

Mas se o tempo de um concerto legalista passou, quais são as implicações para os dez mandamentos hoje? Ainda têm eles autoridade moral? Evidentemente sim, pois também abrangem a era espiritual. No tempo do novo concerto a lei é universalizada; aplicada a Cristo e ao Espírito; resumida como amor e preservada até que o reino de Deus seja inaugurado. Que a lei é universalizada e desnacionalizada pode ser visto na maneira como Paulo adapta o quinto mandamento, que requer honra aos pais, de modo a caber na nova situação de uma igreja multinacional. Em Ef 6:1-3, o apóstolo cita o mandamento, mas não textualmente. Ele modifica uma frase; a que contém a promessa de longevidade. Aí, o mandamento já não promete longevidade "na terra que o Senhor, teu Deus, te dá" (Ex 20:12), mas promete longevidade na Terra ou no mundo. O mandamento é universalizado para incluir filhos gentios obedientes vivendo além dos limites de Israel. O benefício da longevidade é para todos em todo lugar.

Existe também o caráter de ampliação, quando os preceitos no novo concerto recebem um grau de importância ainda maior. Mt 5:21-22; 27-28 apresenta que, aos antigos havia sido dito "não matarás" - no novo concerto não é somente reafirmado, mas ampliado ao nível do coração no caso de "ódio contra o próximo/irmão" como sendo motivo para quebra do preceito. O mesmo acontece com o mandamento que proíbe o adultério.

A obediência à lei não propicia méritos salvíficos a ninguém, pois entra no campo da santificação, não da justificação. Deve, antes, ser uma demonstração de nosso amor a Deus e ao próximo. Aquele que é justificado pela fé recebe a promessa de ter o amor de Deus derramado em seu coração pelo Espírito Santo (ver Rm 5:1, 5), o que se expressará em cumprimento da justiça da lei na sua vida renovada e inspirada pelo Espírito de Deus (ver Rm 8: 3 e 4).

De fato o que corresponde ao pensamento de muitos líderes e autores cristãos do passado e do presente, sendo também a tese de credos e declarações de fé históricos de Igrejas como a batista, metodista, episcopal, congregacional, presbiteriana, luterana, e outras. A verdade é que a permanência da legislação moral divina na "dispensação cristã", registrada nos Dez Mandamentos, está mais do que claramente estabelecida em vários textos. Eis alguns: Mt 5:17 - "Cumprir": Exemplo de Perfeita Obediência ou Declaração de Fim de Vigência?

Jesus reitera que não veio abolir a lei, e sim cumpri-la (Mt 5:17-19). Mas será que Ele quis dizer, como alguns entendem, que o Seu "cumprimento" da lei dava-lhe fim ou fazia com que perdesse a vigência? Se for assim, em primeiro lugar, isso significaria pôr o próprio Jesus em contradição, dizendo: "não vim abolir. Vim... abolir (o que equivale a isentar da necessidade de ser cumprida)! Em segundo lugar, o contexto é determinante para perceber o que Jesus realmente quis dizer. O tema do Seu discurso sobre o monte é que Seus ouvintes atentassem ao caráter espiritual da lei divina, e prestassem obediência a essa lei - que Ele veio exemplarmente cumprir-de modo superior à falsa obediência e acatamento superficial a ela por seus chefes religiosos. Vejamos a "moldura" contextual dessa declaração de Cristo. No verso imediatamente anterior, o 16, Jesus recomenda: "Assim, fazei brilhar a vossa luz diante dos homens a fim de que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus". No verso imediatamente posterior, o 20, lemos: "Porque vos digo que se a vossa justiça não exceder em muito à dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus".

Antes deste significativo texto, Ele recomendara que os Seus ouvintes não só obedecessem a lei, mas ensinassem aos outros tal obediência. E se agissem de modo contrário, defrontariam sérias conseqüências (vs. 19), uma linguagem bem estranha se Sua intenção fosse pregar o fim da vigência dessa lei! Daí em diante Ele passa a destacar, não alguma nova lei diversa da conhecida por aquela gente, mas o caráter espiritual dessa lei que veio cumprir e que tem sentido mais profundo e abrangente do que o que aprendiam com seus chefes religiosos: "ouvistes o que foi dito aos antigos . . . Eu, porém, vos digo. . ." Cristo ao dizer tais palavras não se põe a descartar a lei divina, mas a expor o seu real sentido. Ele acentua, por exemplo, que quem olhar para uma mulher com sentimentos impuros já adulterou com ela, e quem odiar a seu irmão, cometeu o equivalente ao assassinato! Só que SEMPRE foi errado olhar para uma mulher com tais sentimentos libidinosos (ver Jó 31:1) e SEMPRE foi errado odiar um semelhante (Lv 19:18). Portanto, não eram novas e revolucionárias normas que Cristo estava ensinando, como alguns equivocadamente entendem, mas destacando o verdadeiro sentido ético e espiritual da lei, que haviam perdido de vista.

Pelo final de Seu discurso, Cristo até antecipa o acerto de contas do tempo do fim, declarando que muitos que dizem, "Senhor, Senhor", e que relembram as suas muitas obras e atividades supostamente para promover o Seu Reino, serão rejeitados. A razão? Jesus será implacável: "Apartai-vos de Mim, vós os transgressores da lei . . ." (ver Mt 7:21-23). Esta tradução está em perfeita harmonia com o original grego, pois o termo "iniqüidade, que consta de muitas versões é no original grego anomian, a mesma palavra que aparece em I João 3:4, ao declarar: "pecado é transgressão da lei-anomian".

Mt 5:17-19 é significativo que a edição do Novo Testamento da American Bible Society (Contemporary English Version) assim verte: "Não suponham que eu vim para dar fim à lei ou aos profetas, não vim para dar-lhes um fim, mas para dar-lhes pleno significado". É verdade que o termo "cumprir" pode também ter referência ao papel de Cristo como antitipo dos aspectos prefigurativos, cerimoniais da "lei e profetas"-todo o conjunto de ensinos e cerimônias do Velho Testamento. Mas que a ênfase neste caso é ao aspecto de obediência perfeita a essa lei é tornado muito claro pelo contexto. Os versos 16, 21, 22, 27, 28, 43, 44 demonstram que os princípios dessa lei deviam ser compreendidos (e praticados) em forma muito mais profunda do que os fariseus e escribas o faziam.

O cumprimento dos aspectos cerimoniais seria automático, e ocorreria na cruz, sem que isso afetasse a continuidade da lei moral, que não poderia ser abolida! Caso o fosse, teríamos o caos a nível individual e coletivo da Igreja e da sociedade como um todo. Abolição do Decálogo? Não é absolutamente este o sentido do discurso de Cristo em todo o trecho dos capítulos 5 a 7 de Mateus. Certa vez Jesus foi abordado por um "doutor" em leis israelitas que desejava comprometê-lo para explorar contra Ele qualquer declaração que se chocasse com as tradições religiosas nacionais. O episódio é narrado em Mateus 22 e Marcos 12 que mostram que quando os fariseus ficaram sem argumentos contra Cristo, um intérprete da lei, "experimentando-O, lhe perguntou: Mestre, qual é o grande mandamento na lei?" (Mt 22:34-36). A resposta de Cristo causou a seguinte reação daquele líder religioso dos judeus: "Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que ele [Deus] é o único, e não há outro senão Ele; e que amar a Deus de todo o coração, de todo o entendimento . . . e amar ao próximo como a si mesmo, excede a todos os holocaustos e sacrifícios". A reação de Jesus foi: "Vendo . . . que ele havia respondido sabiamente, declarou-lhe: Não estás longe do Reino de Deus". E eis a reação dos demais: "E já ninguém mais ousava interrogá-lo" (Mc 12:32-34).

Tivesse a resposta de Jesus indicado uma revolução ou ruptura na legislação divina para Seus seguidores, com ordenanças inteiramente novas, a reação do líder judaico seria bem outra! Ele sairia é dizendo que Jesus contradizia os ensinos de Moisés, anulando a lei dada por Deus para impor novos e revolucionários mandamentos. Afinal, a intenção dele era exatamente pegar Jesus contradizendo suas tradições! Jesus demonstrava a coerência de Seu "novo mandamento" com a antiga lei moral divina, que tem a mesma base: o amor (Jo 13:34, cf. 14:15). Na verdade, aquele jurista judaico só poderia mesmo ter tal reação de aprovação, pois Jesus Cristo nada mais fez do que citar-lhe as passagens de Dt 6:5 e Lv 19:18, que ele bem conhecia. Ou seja, os "novos" mandamentos de amor a Deus e ao próximo não o eram em termos de tempo e sim de renovado significado. A liderança judaica havia perdido de vista o real sentido, o "espírito" da lei, apegados como estavam à mera "letra". O termo grego para "novo" neste caso é kainós, que significa 'algo novo em qualidade', o mesmo usado em "nova criatura" (2Co 5:17) e "novos céus e nova terra" (Ap 21:1). Não se trata de novo em substância (que requereria o adjetivo néos, como no "odres novos" de Mt 9:17), mas algo que já existia e passa por uma renovação. Há aí um interessante paradoxo bíblico - o novo que era antigo!

Quando se diz que agora o cristão está sob a lei de Cristo, não há o que negar sobre isso. Paulo mesmo declarou que os cristãos devem cumprir "a lei de Cristo" (Gl 6:2). Mas estes crentes devem lembrar-se que os mesmos princípios básicos da "lei de Cristo" são os da "lei de Deus"-amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo. Portanto, a lei de Cristo e a lei de Deus, são uma só e a mesma. Em parte alguma a Bíblia indica que houve rompimento entre o Pai e o Filho, com o último criando um novo código moral. Citando alguns mandamentos do Decálogo, como "não matarás", "não furtarás" e "não adulterarás", Paulo conclui em Rm 13:8-10: "O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor" [Obs.: ele diz "é", e não "era"] (ver também Gl 5:13 e 14). A seguir, diz retoricamente: "e se há qualquer outro mandamento...". Claro que sabia haver outros mandamentos. O fato de não repetir todos é dispensável para se perceber a abrangência do seu comentário. Ele claramente está se referindo a todos os mandamentos da lei divina como tendo por base o "amor" a Deus e ao próximo, exatamente os princípios que caracterizam os mandamentos de Cristo.

Somente isto refuta a tese do fim da vigência da lei moral dos Dez Mandamentos como norma de conduta cristã. Paulo apenas reitera o mesmo princípio que Jesus enunciou como sendo os "mesmíssimos" da Sua lei. Quando o Apóstolo lembra aos efésios o dever da obediência dos filhos aos pais, o "primeiro mandamento com promessa" (o 5º. Do Decálogo), nada indica que fale de normas de uma lei ultrapassada, abolida na cruz, que não mais serve de regra de conduta (ver Ef 6:1-3). Paulo, que acentuou estar "debaixo da lei de Cristo", indicando ser esta a mesma "lei de Deus" (ver 1Co 9:21), também exaltou o Decálogo como uma lei "santa, justa, boa" na qual tinha "prazer", que era estabelecida pela fé (Rm. 3:31). Disse mais que "o que importa é guardar "os mandamentos de Deus" (1Co 7:19).

Que a lei em Rm 3:31 é a dos Dez Mandamentos é óbvio comparando com Rm 3:20 e 7:7 - aquela que Paulo mostra ser a que define o pecado citando um dos mandamentos do Decálogo para ilustrar o seu ponto (ver também Rm 13:8-10). O próprio uso de sua parte da palavra "mandamento" seria reconhecido tranqüilamente pelos leitores primários de suas epístolas como uma referência ao Decálogo. O fato é que o cotejo de diferentes textos neotestamentários indica harmonia, não dicotomia entre a "lei de Cristo" e a "lei de Deus", consubstanciada no Decálogo. O apóstolo Tiago respalda isto e, tal como Paulo, não deixa por menos em sua epístola (ver Tg 2:8-12). Também o mesmo João que lembra que "pecado é transgressão da lei" (1Jo 3:4) acentua o princípio do amor como base dessa lei que para ele tanto é de Deus quanto de Cristo (ver 1Jo 2:7; 3:21-24; 4:7-11, 21).

Longe de ensinar que o Novo Testamento representa uma ruptura na "legislação moral" divina - um novo concerto sem a lei divina básica expressa no Velho Testamento - o autor de Hebreus mostra que aos que aceitarem os termos do Novo Concerto (ou Novo Testamento) o próprio Deus escreveria Sua lei em seus corações e a imprimiria em suas mentes em Hb 8:6-10 e 10:16. Em 2Co 3:1-11 Paulo compara o cristão sob o novo concerto com uma "carta, escrita em nossos corações, conhecida por todos os homens . . . escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações". O próprio contraste tábuas de pedra/tábuas de carne deixa implícito que Paulo entende que o conteúdo todo das tábuas de pedras se transferiu para as tábuas de carne do coração, como na metáfora do profeta (ver Ez 36:26, 27).

No novo concerto, firmado sobre "melhores promessas", Deus escreve a Sua lei nos corações dos que aceitarem os seus termos, tirando-a das frias tábuas de pedra para gravá-la nos corações aquecidos pela graça divina (Hb 8:6). Note-se que essa "lei de Deus" é a mesma que constava da promessa original dirigida aos filhos de Israel em Jr 31:31-33, e não outra. O ônus da prova fica com quem negue este fato, claramente estabelecido nestes textos, além de Hb 10:16, que confirma: Deus escreve a Sua lei nos corações de Seus filhos sob a nova aliança. O texto não fala em "lei de Cristo", nem "lei do amor", ou "lei da fé" como, sem dúvida, prefeririam os que pregam a abolição do Decálogo com a implantação do Novo Concerto. Os leitores hebreus-cristãos da epístola entenderiam perfeitamente qual é esta lei escrita nos corações regenerados.

O contexto destas passagens (capítulos 7 a 10 de Hebreus) claramente define que se aplicam ao Israel de Deus da dispensação cristã. Afinal, o novo concerto é agora disponível a todos, judeus e gentios, pois o muro de separação foi desfeito com a abolição da "lei cerimonial"-não da "lei moral" (Ef 2:11 a 22). Se a abolição referida em Efésios se aplicasse ao Decálogo teríamos o caos total, com todos os pecados liberados para a humanidade: matar, blasfemar, roubar, adulterar.

Portanto, o tema da lei divina, cujo resumo são os Dez Mandamentos, não é coisa do Velho Testamento. Pelo contrário, é componente fundamental do próprio Novo Testamento, por certo em seus aspectos morais, não cerimoniais.

Paradoxalmente, os que pregam a abolição total do Decálogo admitem que nove dentre os 10 mandamentos são ainda válidos para o nosso tempo. É estranho, pois, que os advogados dessa abolição da lei declarem que "abolir significa: 'revogar, anular, extinguir, suprimir'", ou seja, "dar fim total e cabal". Essa total abolição, por fim, só alcança um dos mandamentos! Noventa por cento continuam sem serem afetados por abolição tão radical. Uma "abolição" sem dúvida bem pífia, ineficaz e dispensável...

Isso nos leva a perceber que essa pregação da abolição total da lei moral (que teria ido de embrulho com as cerimônias prefigurativas) tem um só objetivo-evitar um de seus mandamentos, ou seja o 4º. É o que estabelece o descanso no sábado do sétimo dia. As igrejas protestantes sempre ensinaram a vigência e validade do Decálogo como norma cristã, como se vê nas suas históricas Confissões de Fé, Credos e Catecismos. Então, a questão em debate seria que o domingo tomou o lugar do sábado dada a ressurreição de Cristo no primeiro dia da semana. O confronto seria só quanto ao dia que cumpriria as estipulações desse 4º mandamento. Se a ressurreição trouxe a adoção do primeiro dia da semana em lugar do sábado do 7º dia pela Igreja, então nada afetaria os princípios do Decálogo. Este continuaria naturalmente sendo a norma cristã de conduta. Tal era (e ainda é) o entendimento de inúmeros pensadores cristãos como Wesley, Calvino, Spurgeon, Moody, Billy Graham, James D. Kennedy, A. H . Strong, Adam Clark, Alfred Edersheim, Amaral Fanini, Dinelcir Lima, Harold Brokke, et al.

Este, porém, é o confronto que modernamente se quer evitar a todo custo. Por quê? É que sabem não haver como demonstrar bíblica e historicamente que o domingo tomou o lugar do sábado do 7º dia como "Dia do Senhor". Isto nos conduz a uma séria pergunta que até hoje nenhum defensor da teoria do "Decálogo abolido, substituído pela 'lei de Cristo'" conseguiu responder de modo minimamente aceitável e convincente. Eis a questão que não sabem como resolver: Onde é dito nas Escrituras que quando Deus escreve a Sua lei nas mentes e corações dos que aceitam os termos do Seu novo concerto (Novo Testamento): a) o 4o. mandamento fica de fora; b) o domingo toma o lugar do sábado; ou c) o princípio do dia de repouso se torna algo vago, voluntário e variável, podendo ser respeitado ou ignorado, ou sendo um tempo qualquer que se ajuste às melhores conveniências do crente (ou de seu empregador)?- Hb 8:6-10 e 10:16.

Esta pergunta no fundo resume-se numa equação que se tem revelado indemonstrável: NOVO CONCERTO = NOVA LEI). Se impossível de responder, fique pelo menos como um tema para profunda reflexão de todos os leitores deste material, uma reflexão que os conduza a uma decisão pela verdade e abandono do erro do semi-antinomismo/dispensacionalismo.

Escatologicamente falando há uma continuidade na era do Espírito. Paulo aos tessalonicenses fala que os crentes deveriam manter-se completamente distantes da idolatria e da impureza sexual (1Ts 1:1-10; 4:1-8). Se não o fizessem, estariam nada menos que rejeitando o Espírito. Paulo aplicou a profecia da nova aliança de Ezequiel àquela situação. Ezequiel previu um tempo quando o povo de Deus seria limpo da impureza (akatharsia), não mais serviria a ídolos, teria o coração de pedra transformado em coração de carne e guardaria os decretos divinos (Ez 36:24-27). Essa profecia é similar às profecias sobre o novo concerto de Jeremias e Isaías (Jr 31:31-34; Is 59:20 e 21). Dessa forma, Paulo mostra claramente que os mandamentos ainda vigoram para os gentios na era da nova aliança, sob a qual os mandamentos são despidos de sua limitada jurisdição nacionais. Isso era necessário porque, no Antigo Testamento, os mandamentos também funcionavam como leis governamentais para uma nação, como a lei do país. Desobedecê-los, portanto, não era apenas imoral, mas também ilegal. Flagrantes infrações da lei eram punidas com pena de morte. Uma criança incorrigível, uma mulher apanhada em adultério e um transgressor do sábado poderiam ser apedrejados até a morte.

Quando os fariseus levaram a Cristo uma mulher flagrada em adultério, o Mestre não contestou os argumentos fundamentados na lei mosaica para apedrejá-la. Ele reconheceu a infração moral da mulher, mas rejeitou a pena de morte (Jo 8:3-11). Ademais, o Novo Testamento adapta os mandamentos ao novo tempo resumindo-os em um princípio simples, a saber, o amor ao próximo como a si mesmo (Rm 13:9 e 10). O efeito disso é uma obediência com nova motivação, da obediência como dever para a obediência como um desejo positivo. Esse resumo não abole os mandamentos, simplesmente porque um resumo não anula o que foi resumido. Assim a lei é preservada. Nem um j ou til será omitido da lei sem que tudo seja cumprido (Lc 16:16 e 17). Como deveríamos então viver? Embora a lei ainda seja moralmente autoritária e necessária, não devemos viver por ela, mas por Jesus. Sabemos que não podemos observá-la a menos que vivamos na graça de Deus, sejamos constrangidos pelo amor de Jesus e recebamos a capacitação do Espírito Santo.

Os mandamentos podem funcionar como "limitadores" de que fomos separados para Deus. Mas os "limitadores" são apenas a cerca; eles não são a propriedade. A terra é a propriedade. Jesus é nossa terra. Nossa alma floresce nEle, com Ele e para Ele. Crescemos nEle. Sabemos que não podemos esperar que alguma coisa cresça por causa de uma cerca. No âmago do nosso ser, sabemos que a lei, por mais valiosa que seja não é a nossa glória. "Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá luz, Ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo" (2Co 4:6). Isso é nossa glória.



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